Rockefeller e a construção do império do petróleo
Na edição de hoje: O imigrante que comprou um time da NFL; Mellerio: De Maria de Médici ao Ballon d’Or e Rockefeller e a construção do império do petróleo.
“Em toda a minha vida, nunca conheci pessoas sábias que não lessem o tempo todo — nenhuma, zero.” — Charlie Munger
🏈 O imigrante que comprou um time da NFL
A história de Shahid Khan costuma ser descrita como um dos exemplos mais claros do chamado “sonho americano”. Nascido em 1950 em Laore, no Paquistão, filho de um vendedor de equipamentos topográficos e de uma professora de matemática, ele cresceu em uma família de classe média que valorizava educação e disciplina.
Aos 16 anos decidiu deixar o Paquistão para estudar engenharia nos Estados Unidos, na University of Illinois at Urbana–Champaign. Para se sustentar, começou lavando pratos por cerca de US$ 1,20 por hora, uma experiência modesta que marcou o início de sua trajetória profissional.
Ainda durante a universidade, Khan conseguiu um emprego em uma pequena fabricante de autopeças chamada Flex-N-Gate. No trabalho, Khan revelou um talento incomum para engenharia aplicada e uma obsessão por eficiência industrial.
Após se formar em engenharia industrial em 1971, ele permaneceu na empresa e começou a desenvolver soluções para melhorar componentes automotivos, especialmente para caminhões.
Mas seu verdadeiro salto veio quando decidiu empreender. Em 1978, fundou a Bumper Works, uma pequena empresa dedicada a fabricar para-choques automotivos mais leves e eficientes. A aposta parecia arriscada e chegou a enfrentar disputas judiciais com seu antigo empregador, mas Khan persistiu. Dois anos depois, em um movimento que definiria sua carreira, comprou justamente a Flex-N-Gate e integrou as operações das duas empresas.
Assim, Khan desenvolveu um novo design de para-choque de peça única, mais leve e eficiente para consumo de combustível, que rapidamente chamou a atenção das montadoras. Grandes fabricantes passaram a adotar o produto e a empresa cresceu de forma constante. Décadas depois, a Flex-N-Gate se transformou em uma gigante com dezenas de fábricas e bilhões de dólares em receita anual.
Com o sucesso no setor automotivo, Khan começou a olhar para outros campos. Um de seus sonhos pessoais era possuir uma equipe esportiva. Depois de tentar comprar o St. Louis Rams sem sucesso, ele finalmente adquiriu em 2011 o Jacksonville Jaguars por cerca de US$ 770 milhões. Pouco tempo depois, expandiu seu portfólio esportivo ao comprar o Fulham F.C., em Londres.
O interesse por entretenimento continuou crescendo. Em 2019, ao lado do filho Tony Khan, ajudou a lançar a All Elite Wrestling, uma nova empresa de luta livre profissional que rapidamente se tornou concorrente relevante da WWE. Paralelamente, Khan investiu em hotéis, imóveis e projetos urbanos ligados às suas franquias esportivas.
Hoje, com uma fortuna estimada em mais de US$ 15 bilhões (Forbes 2026), Shahid Khan é um dos empresários mais relevantes do setor automotivo e um dos proprietários mais influentes do esporte profissional.
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💎 Mellerio: De Maria de Médici ao Ballon d’Or
Em um mundo em que empresas surgem e sucumbem em intervalos de poucas décadas, a trajetória da Mellerio dits Meller tem início em 1613 e permanece ativa até os dias de hoje. Considerada a joalheria familiar mais antiga ainda em operação na Europa, a empresa permanece na posse da mesma família há 14 gerações.
Mais que uma joalheria, essa é uma dinastia familiar que superou monarquias, revoluções e mudanças culturais, sem jamais ter deixado de produzir alta joalheria.
A origem da casa parece quase um episódio de corte real. No começo do século XVII, a família Mellerio, de origem italiana e do vale de Vigezzo, se instalou na França como comerciantes itinerantes.
A virada se deu quando Maria de Médici, rainha-mãe da França, concedeu à família privilégios especiais para comercializar por todo o reino. Este decreto real de 1613 é considerado a fundação formal da atividade que, séculos depois, se tornaria um dos nomes mais antigos da joalheria mundial.
Com o tempo, o pequeno negócio de venda de objetos preciosos cresceu. No século XVIII, membros da família começaram a vender diretamente em Versalhes, atraindo clientes da própria corte e outras como a rainha Maria Antonieta. A partir daí, a Mellerio passou a atender imperatrizes, rainhas e aristocratas de toda a Europa, consolidando uma reputação que misturava habilidade artesanal e proximidade com o poder.
No século XIX, a empresa se estabeleceu definitivamente em 9 Rue de la Paix, em Paris, endereço que permanece até hoje e que se tornaria um dos centros históricos da alta joalheria. Ao longo das décadas seguintes, a maison produziu tiaras, diademas e peças cerimoniais para diversas casas reais europeias, além de criar inovações como o chamado “corte Mellerio”, um formato de diamante inspirado em um oval dentro de uma elipse que virou assinatura estética da marca.
Mesmo atravessando guerras, mudanças políticas e revoluções no mercado do luxo, a família tomou uma decisão que moldaria seu futuro: permanecer independente. Enquanto muitas joalherias históricas foram incorporadas por grandes conglomerados do setor, a Mellerio continuou sendo um negócio familiar, preservando técnicas artesanais e um modelo de produção que privilegia peças feitas à mão e encomendas exclusivas.
Ao longo do tempo, a casa também deixou sua marca fora da joalheria tradicional. É dela, por exemplo, a criação de alguns dos troféus esportivos mais famosos do mundo, como o Ballon d’Or, entregue desde 1956 ao melhor jogador de futebol do planeta, e a Coupe des Mousquetaires, entregue aos campeões de Roland-Garros.
Quatro séculos depois de um decreto real mudar o destino de uma família de comerciantes italianos, a Mellerio continua operando no mesmo endereço parisiense e sob o comando dos descendentes dos fundadores. Em um setor que vive de novidade e tendência, talvez o maior luxo que a marca tenha construído seja a tradição.
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🛢️ Rockefeller e a construção do império do petróleo
Na formatação e pesquisa dos temas dos textos da newsletter do Curioso, temos o cuidado de buscar histórias que fogem do mainstream dos conteúdos sobre negócios no Brasil. A trajetória de empreendedores pouco conhecidos como Cornelius Vanderbilt, Varujan Burmaian e Jean Paul Getty é exemplo disso.
Ainda assim, existem trajetórias de empresas e empreendedores que marcaram época e que, mesmo já bastante conhecidas, merecem ser revisitadas de tempos em tempos. É o caso de John D. Rockefeller, um personagem central na formação da indústria moderna e um dos empresários mais influentes da história do capitalismo.
Sua trajetória ajuda a entender não apenas o nascimento do império do petróleo (ainda mais em tempos de conflito onde o “ouro negro” está em evidência), mas também como disciplina, escala e estratégia podem transformar um negócio comum em uma máquina de riqueza.
Rockefeller nasceu em 1839, em Richford, New York, em uma família de classe média e marcada por contrastes. Seu pai, William Avery Rockefeller, era um vendedor ambulante conhecido por negócios pouco convencionais, enquanto sua mãe, Eliza Davison Rockefeller, cultivava uma disciplina rígida dentro de casa. Foi dela que o jovem Rockefeller herdou o hábito de registrar cada centavo que ganhava ou gastava, prática que o acompanharia por toda a vida e que ajuda a entender a obsessão por controle que marcaria sua carreira.
Ainda adolescente, conseguiu seu primeiro emprego como assistente de contabilidade em Cleveland, Ohio. Antes mesmo dos 25 anos já havia participado de seu primeiro empreendimento relevante, um negócio de comércio de grãos e alimentos que prosperou durante a American Civil War, quando a demanda por suprimentos cresceu rapidamente.
Mas foi no petróleo que Rockefeller enxergou uma oportunidade realmente extraordinária. Na década de 1860, o setor ainda era caótico. Pequenas refinarias surgiam e desapareciam rapidamente, com processos ineficientes e margens instáveis. Rockefeller percebeu que o verdadeiro dinheiro não estava em encontrar petróleo, mas em refiná-lo com eficiência e distribuir seus derivados em grande escala.
Em 1870 ele fundou a Standard Oil, empresa que rapidamente se tornaria a mais poderosa do setor. Com isso, Rockefeller buscava reduzir custos de produção, negociar tarifas de transporte mais baixas com ferrovias e, sempre que possível, comprar concorrentes menores. Em poucos anos, a Standard Oil passou a controlar grande parte do refino de petróleo nos Estados Unidos.
No auge de seu poder, na década de 1880, a empresa chegou a controlar cerca de 90% do refino de petróleo americano. Essa dominância transformou Rockefeller no homem mais rico do país e também no alvo de críticas. Para alguns, ele era um gênio da organização industrial. Para outros, um símbolo do capitalismo sem limites.
A pressão pública e política culminou em 1911, quando a Supreme Court of the United States determinou a divisão da Standard Oil por violação das leis antitruste. O império foi fragmentado em dezenas de empresas independentes. Ironicamente, muitas delas se tornariam gigantes globais, como ExxonMobil e Chevron, ampliando ainda mais a fortuna de Rockefeller, que manteve participações em várias das novas companhias.
Nos últimos anos de vida, ele dedicou grande parte de sua energia à filantropia. Criou instituições que ajudaram a financiar universidades, pesquisas médicas e iniciativas educacionais em larga escala, incluindo a University of Chicago e a Rockefeller Foundation. Ao morrer em 1937, Rockefeller havia doado o equivalente a US$ 530 milhões (em valores nominais da época) para causas públicas.
Mais de um século depois, sua história continua sendo estudada não apenas pela dimensão da riqueza acumulada, mas pela forma como reorganizou uma indústria inteira. Em um momento em que o petróleo ainda molda conflitos, revisitar a trajetória de John D. Rockefeller é também revisitar o nascimento do capitalismo moderno.
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Demais! E o Brasil segue até hoje sem resolver o problema quem Rockefeller resolveu no século XIX.