IPO à brasileira
Na edição de hoje: Sheldon Adelson: a aposta certa na hora certa; Goodwood: o império do Duque de Richmond e Compass: IPO à brasileira.
“Em toda a minha vida, nunca conheci pessoas sábias que não lessem o tempo todo — nenhuma, zero.” — Charlie Munger
🎰 Sheldon Adelson: a aposta certa na hora certa
Sheldon Adelson nasceu em 1933 no bairro de Dorchester, em Boston. Seu pai era taxista e sua a mãe administrava uma pequena loja de tricô. Aos 12 anos, segundo entrevista ao Las Vegas Review-Journal, pediu dinheiro emprestado ao tio para comprar uma licença de vendedor de jornais. Ao falecer, em 2021, Adelson era considerado um dos maiores magnatas de cassinos do mundo.
O primeiro grande acerto veio pelos computadores, não pelos cassinos. Em 1979, sem nenhum conhecimento técnico em tecnologia, criou o COMDEX, salão de exposições para a indústria de informática que se tornaria o maior trade show de tecnologia do mundo nas décadas de 1980 e 1990. Em 1995, vendeu o negócio ao grupo japonês SoftBank por US$ 862 milhões.
Em 1991, durante a lua de mel com sua segunda esposa, a médica israelense Miriam Farbstein, passeando pelos canais de Veneza, teve a ideia de replicar a cidade italiana no meio do deserto de Nevada. Em 1996 demoliu o lendário Sands Hotel, e em 1999 abriu The Venetian, com canais, gôndolas e mais de 4.000 suítes. O hotel custou US$ 1,5 bilhão e era o maior do mundo na inauguração.
A jogada que multiplicou a fortuna foi identificar Macau antes da concorrência. Em 2004, quando o antigo território português abriu suas primeiras licenças de cassino, Adelson entrou com US$ 265 milhões e recuperou o investimento em menos de um ano. Macau logo superaria Las Vegas como o maior mercado de jogo do mundo em receita.
Em 2010, abriu o Marina Bay Sands em Singapura, o prédio mais caro do mundo naquele momento, com a piscina suspensa a 57 andares que virou um ícone.
Quando Sheldon morreu em 2021, Miriam herdou a participação majoritária da Las Vegas Sands Corporation, listada na Bolsa de Nova York. Em 2026, sua fortuna era estimada em US$ 36,1 bilhões, a posicionando como a 60ª pessoa mais rica do mundo. Em 2023, comprou o time da NBA Dallas Mavericks por US$ 3,5 bilhões.
🚗 Goodwood: o império do Duque de Richmond
Charles Gordon-Lennox, o Duque de Richmond, herdou uma propriedade de 12.000 acres no interior da Inglaterra com grandes custos fixos, receita sazonal e um circuito de corridas abandonado desde 1966.
Quando assumiu o controle da Goodwood Estate em 1994, aos 40 anos, conforme a tradição familiar, o faturamento do negócio era de £8 milhões por ano. Hoje, após anos à frente de um dos maiores cases de gestão patrimonial da Europa, o grupo fatura £73 milhões.
Em 1993, um ano antes de assumir formalmente a propriedade, organizou o primeiro Festival of Speed nos jardins de Goodwood House, convidando pilotos e celebridades para subir o trajeto histórico com carros clássicos e de corrida. A previsão que inicialmente era de 2.000 visitantes acabou atraindo 25.000 pessoas.
Em 1998, após cinco anos de restauração do circuito original, lançou o Goodwood Revival, evento que recria com fidelidade as corridas dos anos 1940, 1950 e 1960. Carros da época, pilotos de época, e um detalhe que se tornaria marca registrada: os 140.000 espectadores são convidados a usar roupas do período. Ou seja, o que nasceu como curiosidade cultural virou o maior encontro histórico de automobilismo do mundo.
A lógica de negócio por trás de tudo é clara. O Festival of Speed em julho e o Revival em setembro são os motores de receita, mas o que Lord March construiu não é apenas um calendário de eventos, mas sim um ecossistema.
A propriedade conta com hotel de 91 quartos, dois campos de golfe, aeródromo com escola de aviação, hipódromo, clube privado, granja orgânica de 3.000 acres, a maior do tipo no Reino Unido, e o Goodwood Road & Racing, canal de mídia próprio. O esporte é o marketing, o restante são negócios.
“Somos como um pequeno conglomerado. Todos os negócios estão conectados pelo fato de estarem aqui.”
Lord March recusa repetidamente propostas para levar o Festival of Speed para outros países, como a China ou para os Estados Unidos. O argumento é que o maior valor do “produto” está justamente na sua autenticidade.
Quem quer ir ao Goodwood Revival precisa ir a Chichester, em Sussex, e essa impossibilidade de replicação é exatamente o que mantém os ingressos valorizados, os patrocinadores disputados e a marca intacta após mais de 30 anos de operação.
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📈 IPO à brasileira
Hoje, dia 11 de maio, as ações da Compass passarão a ser negociadas na bolsa brasileira. A Compass, empresa de gás natural do Grupo Cosan, levantou R$ 3,2 bilhões na oferta.
A notícia pode parecer corriqueira (ou pelo menos, parecia) até você saber que esse foi o primeiro IPO da bolsa brasileira em quase cinco anos, a maior seca de ofertas públicas desde meados dos anos 1990.
Contudo, o contexto explica o silêncio. Em 2020 e 2021, com a Selic na mínima histórica de 2%, 74 empresas correram para a bolsa em um boom de euforia pós pandemia. Quando o Banco Central iniciou o ciclo de alta em março de 2021, o ambiente virou rapidamente. A taxa chegou a 13,75% em 2022 e não voltou abaixo de 10% desde então.
Com renda fixa pagando bem e o mercado volátil, nenhuma empresa quis enfrentar o investidor brasileiro com uma oferta de ações. Se em 2022 havia 385 empresas listadas na B3, em 2026 esse número havia caído para 335.
Apesar do cenário macro não ser dos melhores devido a guerra no Irã, a oferta foi precificada no piso da faixa indicativa, a R$ 28 por ação, avaliando a empresa em cerca de R$ 20 bilhões. A operação foi 100% secundária, ou seja, nenhum recurso entrou no caixa da Compass, mas o recurso foi para a Cosan reduzir sua dívida, que havia superado R$ 30 bilhões antes da venda da participação na Vale.
A Compass em si é um negócio de infraestrutura com posição relevante em um mercado em crescimento. A empresa importa gás natural liquefeito pelo terminal de Santos, distribui por sete distribuidoras estaduais incluindo a Comgás e comercializa no mercado livre pela sua subsidiária Edge. É exatamente o tipo de ativo que fundos de infraestrutura e soberanos buscam, um mercado previsível e regulado.
O comparativo com os Estados Unidos é revelador. Em 2021, enquanto o Brasil vivia seu boom com 74 IPOs, os americanos realizaram mais de 1.000 operações, respondendo por 23% do volume global.
O mercado americano não para. Empresas como Airbnb, Rivian e Arm abriram capital em janelas desafiadoras porque a profundidade e a liquidez da bolsa americana absorvem a volatilidade de forma que a B3 ainda não consegue replicar. A Selic estruturalmente alta cria uma concorrência desleal entre renda variável e renda fixa que não existe nas economias desenvolvidas, onde os juros são historicamente baixos.
O IPO da Compass encerra uma seca em um mercado desafiador e com a economia mundial de olho nos próximos desdobramentos da guerra. Segundo relatos de pessoas envolvidas na abertura de capital, a oferta possivelmente teria sido melhor precificada em um cenário diferente. No entanto, o que realmente importa neste momento é que o mercado brasileiro voltou a ter IPOs. O que ainda falta é o retorno do apetite de verdade.
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