Abramo Eberle e o maior complexo industrial do sul do Brasil
Como um imigrante italiano transformou uma oficina de funilaria em Caxias do Sul no maior complexo metalúrgico do sul do país?
“Em toda a minha vida, nunca conheci pessoas sábias que não lessem o tempo todo — nenhuma, zero.” — Charlie Munger
🏭 Abramo Eberle e o maior complexo industrial do sul do Brasil
Em 2 de abril de 1896, Abramo Eberle comprou do próprio pai uma pequena oficina de funilaria em Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul.
O italiano natural de Monte Magrè, na época com 16 anos, tinha os próprios vizinhos como primeiros funcionários. No início, a metalúrgica produzia lamparinas a querosene, um artigo de grande procura em uma época onde não havia energia elétrica, além de baldes, canecas e outros itens de consumo.
Quando morreu, em 1945, havia construído o maior complexo metalúrgico da região sul do Brasil, com quatro unidades fabris, milhares de funcionários e uma fábrica capaz de produzir desde talheres até armas para o Exército brasileiro.
No contexto, Caxias do Sul era, no final do século XIX, uma colônia de imigrantes italianos recém-chegados ao Brasil, fundada oficialmente apenas em 1875.
Não havia infraestrutura industrial, não havia mercado consumidor consolidado e não havia tradição manufatureira na região. O que havia era terra, trabalho e uma geração de imigrantes que havia atravessado o Atlântico sem nada e precisava construir tudo do zero.
A expansão da Eberle seguiu uma lógica que hoje chamaríamos de diversificação. Em 1918, a empresa começou a produzir talheres, cutelaria e objetos de mesa. Entre 1923 e 1928, instalou uma forja que permitiu fabricar armas para o Exército, como espadas e facas, ao mesmo tempo em que inaugurava uma seção de rebites e botões de pressão e outra de artigos sacros.
Quando as importações foram dificultadas pela Segunda Guerra Mundial, a Eberle aproveitou a lacuna de mercado e passou a fabricar motores elétricos. Cada crise virava uma porta de entrada para um novo segmento.
Naquele momento, Abramo já havia consolidado sua posição como um dos empresários mais respeitados do país. Sua empresa era considerada uma referência no Brasil, frequentemente recebendo autoridades estaduais e nacionais, além de visitantes estrangeiros, como os embaixadores dos Estados Unidos e do Canadá, que deixavam a companhia impressionados com sua organização e resultados.
Em uma viagem a São Paulo para adquirir maquinários, levou consigo queijo, salame e vinho da Serra Gaúcha para vender como forma de cobrir os custos da viagem. Vendeu todo o lote depois que um comprador identificou o vinho como sendo da mesma qualidade de um produto italiano que havia comprado a preço elevado. Eberle era um empresário que monetizava cada detalhe de cada movimento que fazia.
No auge, entre as décadas de 1920 a 1950, a Metalúrgica Abramo Eberle, conhecida como MAESA, era a maior e mais importante indústria metalúrgica de Caxias do Sul e uma das maiores do país na sua categoria, empregando cerca de 30% de toda a população da cidade e fabricando mais de 15 mil artigos diferentes.
O complexo incluía quatro unidades fabris distribuídas pela cidade, que funcionavam como uma pequena cidade industrial. O Palacete Eberle, mansão de quatro andares construída em 1938 no estilo renascentista italiano, com jardins e brasão da família na entrada, era o símbolo físico do que havia sido construído.
Contudo, o declínio da indústria começou depois da morte do fundador. Júlio Eberle, filho de Abramo, ficou à frente dos negócios por mais de vinte anos, mantendo a operação. Mas a partir dos anos 1960, com a crescente penetração de capital internacional no Brasil e a modernização acelerada da indústria nacional, a Eberle foi perdendo posição competitiva progressivamente.
A empresa foi fragmentando sua estrutura e seu capital ao longo das décadas seguintes até ser comprada em 1985 pela Zivi-Hércules, dando origem ao Grupo Zivi-Hércules-Eberle.
Entre 1994 e 2003, o grupo passou por nova reorganização e se transformou na empresa Mundial S.A., que ainda opera hoje no segmento de cutelaria e ferramentas.
Das quatro unidades fabris originais, duas estão desativadas do uso industrial e foram tombadas como patrimônio histórico de Caxias do Sul. Os prédios mais antigos pertencem a um grupo privado de investidores e abrigam hoje escritórios, lojas e estacionamento.
A segunda fábrica, de propriedade do município, está em processo de definição de uso cultural. O maior complexo industrial que o sul do Brasil já viu virou patrimônio tombado e estacionamento.
A história de Abramo Eberle é uma das mais importantes do capitalismo gaúcho e uma das menos difundidas fora da região. A Eberle abriu o caminho para o complexo industrial que viria a definir o polo metalomecânico de Caxias do Sul e de toda a Serra Gaúcha, muito antes de Randon, Marcopolo e Agrale.
Já conhece os outros canais do Curioso Mercado?
📹 Youtube, com versões mais detalhadas das curiosidades de negócios.
📱 Instagram, com curtinhas, reels com histórias de negócios e muito mais!
📖 Biblioteca do Curioso, com livros sobre as melhores histórias do mundo dos negócios.
📞 Canal no WhatsApp, com notícias e curiosidades diárias para você ficar por dentro de tudo.
🔥 Rodada de notícias da semana!
💰 Refúgio de milionários, Marbella quer se tornar o Vale do Silício da Europa
✈️ Embraer estima demanda de 8.500 aeronaves na aviação comercial nos próximos 20 anos
💸 Oncoclínicas pede à Justiça proteção contra risco de perda de R$ 4 milhões em remédios
🤖 Olist põe IA no centro da estratégia, cresce 65% e quer criar modelos proprietários
📝 Conteúdos que recomendamos:
📖 Livro da semana: O rei dos investimentos: O lado oculto de Ray Dalio e do maior hedge fund do mundo
O Rei dos Investimentos investiga os bastidores de Ray Dalio e da Bridgewater Associates, questionando a imagem construída em torno de um dos gestores mais influentes de Wall Street. Baseado em centenas de entrevistas, Rob Copeland revela uma cultura organizacional marcada por extrema cobrança, vigilância e conflitos internos.






